Olá pessoal.
Hoje meu "post" tem por finalidade tecer algumas considerações acerca do filme “Os Idiotas” (Idioterne, Dinamarca, 1998), do cineasta dinamarquês Lars Von Trier.
Quando soube que coube a mim a tarefa de ser o primeiro a escrever acerca d'Os Idiotas- a incumbência é legitima visto que fui eu quem indicou sua exibição-, quedei-me a pensar sobre o que escreveria, qual reflexão extrair desta película. Para não me sentir totalmente desprovido de subsídios acerca do filme, dediquei algum tempo 'navegando' na Internet, à procura de alguma crítica que pudesse ser-me útil quanto à sua compreensão . Embora eu tenha apreendido algumas coisas, poucos foram os sites que encontrei algo que fosse além de sua apresentação (a sinopse). Quando muito, encontrei alguns sites que falavam um pouco acerca do “Dogma 95”- tenho uma "postagem" aqui cuja intenção é esclarecer o que seria este "Dogma"; talvez valha a pena conferir.
Bem, encontrei algumas críticas que foram feitas no período do lançamento do longa (ver: http://fabricio.diaryland.com/osidiotas.html). Críticas estas que ou eram imparciais, atendo-se apenas a apresentar o filme, ou eram cáusticas, sendo taxativamente adversas à proposta de Von Trier.
Após minha pesquisa, percebi que os críticos não destacam –aos menos as críticas que li até então- um aspecto que parece ser importante na proposta do cineasta, juntamente com os outros representantes do manifesto “Dogma 95”; este aspecto seria rediscutir o cinema e a apropriação do mesmo por Hollywood, tornando-se puramente comercial.
Parece que a atenção de todos é desviada, como era de se esperar, para a câmera na mão, ausência de truques cinematográficos, sem iluminação artificial etc., elementos essenciais ao “Dogma 95” (conferir nossa postagem que apresenta um artigo que discorre acerca do “Dogma”).
Nossa reflexão se inscreve tanto ao que diz respeito ao tema discutido "no" e "pelo" filme quanto à rediscussão posta em voga pelo mesmo: primeiro, uma crítica da sociedade burguesa; segundo, uma defesa de um cinema não comercial, ou a não “cosmetização” dos filmes.
Ao exibir um longa que quase todos os personagens são loucos que andam pela cidade, transgredindo os valores impostos pela sociedade dinamarquesa, não pagando a comida que comem nos restaurantes em função de uma possível loucura (idiotice), mostrando a nudez para as pessoas sem que ninguém lhes prenda ou insulte-os por tais atos, tachando-os de pervertidos, Von Trier torna visível e discutível os valores que são instituídos pela sociedade burguesa de seu pais- não só de seu pais, porém, de modo bem geral, de todo o ocidente.
Não me parece que o cineasta prever uma “sociedade de idiotas” ou mesmo que a propõe, antes ele parece nos convidar a refletir sobre as nossas limitações impostas pela sociedade.
Ser “idiota” seria mais que agir loucamente, arrancando sentimento de pena das pessoas ou mesmo constrangimento. Ser “idiota” seria romper com os costumes que muitas vezes não são nossos costumes- sendo, pois apenas ideologias-, destruir concepção que não são nossas concepções.
No filme, percebemos que quando os "idiotas" entram em "paranóia" permitem que as pessoas possam perceber que a louca- ou o agir diferente- não precisa necessariamente ser rotulada de 'feia' ou de 'errada', tendo em vista que se pode ter outras boas experiências com outras maneiras de agir; e que o que a sociedade reprova não são estas diferentes atitudes, entendendo-as muitas vezes por "feias", "grotescs", "indecente". A sociedade reprova o que é novidade, toda proposta de pensar e agir diferente- talvez por causar algum desconforto, porque conceber estas condutas implicam em repensar todo o comportamento social e, por conseguinte, "inventar" uma "nova moral", por assim dizer (Contudo, não queremos configurar uma discussão ambientada apenas na moral, nem pretendemos fazer alusão ao senhor Nietzsche!)
Quiçá alguém reclame, legitimamente, que para que esta proposta de pensamento fosse posta em voga o Von Trier não precisava ter usado uma câmera na mão ou iluminação natural, deixando o filme minimamente desagradável de se ver, para alguns. Esta é a segunda parte que muito me chamou a atenção. Quando o cineasta faz uma película que esteja nos moldes do "Dogma 95", permite que discutamos aonde chegamos com a sétima arte e para onde iremos.
Sim, pois, o que é aparentemente uma espécie de retrocesso quando se limita o que “pode” e o que não “pode” no cinema, é na verdade uma tentativa de recuperar um cinema que não está a serviço do público em forma de simples entretenimento- apresenta-se, como tem de ser, certa contradição, pois, o que mais se procura na arte é a liberdade e não uma postura reacionária.
É bem verdade que muitos podem dizer, e com certa razão, que esta pretensão do “Dogma 95” “malogrou, que não teria como dar certo, que não deu certo”. Todavia, penso que o mais interessante não é fazer uma defesa a esta maneira de fazer cinema- inclusive não penso que seja muito interessante de assistir a filmes nos moldes do Dogma. Meu interesse queda em entender este longa como uma tentativa de estabelecer ou visibilizar uma nova perspectiva para o cinema, o qual não estaria mais sob o domínio de Hollywood.
Não penso que a discussão acerca do rumo do cinema encerra-se em si mesma, pois que tal como ele tem caminhado por vias que desagradam a alguns e satisfazes a outros, a arte, de um modo geral, tem tido outras configurações, que nem sempre são fáceis de conceber- bem, não intenciono falar acerca das artes, tomaria muito tempo e seria necessária uma elucubração.
Desta feita, e para finalizar meu pequeno texto, recomendo o filme, quer seja para ponderar sobre os valores da burguesia, quer para pensar sobre o Dogma, o qual nos faz re-pensar noutras expressões artísticas e seus rumos.
Att a próxima!
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