segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MINHA IMPRESSÃO SOBRE O FILME "HOTEL RUANDA"




COMENTÁRIO;

O filme Hotel Ruanda (Hotel RwandaI, EUA, 2004), de Terry George é um drama emocionante e de caráter denunciador. Sua história é ambientada em Ruanda, país que foi palco de uma guerra civil cujo resultado foi um massacre em que mais de meio milhão de pessoas tiveram suas vidas ceifadas.
Grosso modo, a película retrata o conflito político que aconteceu nesse país, em função do desentendimento dos dois grandes grupos étnicos existentes nesse país: os hutus e os tutsis. Unificando o ódio crescente entre ambos os grupos étnicos ao desinteresse das grandes potências mundiais de apaziguar o conflito, uma grande onda de mortes acontece em Ruanda, sendo os tutsis as principais vítimas e depois os ‘hutus moderados’- estes seriam hutus que não queriam matar os tutsis. Nesse cenário de desespero e horror, há um gerente do hotel Milles Collines, Paul Rusesabagina* (Don Cheadle), que abriga mais de 1200 (mil e duzentas) pessoas, mesmo que no início, a contragosto, pois que além de ele ser um hutu, portanto considerado um traidor que mereceria morrer também, sua maior preocupação é manter a segurança de sua família- sua esposa é tutsi.
 Bem, a sinopse descrita no parágrafo anterior é a que encontramos comumente em qualquer descrição desse filme, todavia, ela não expressa, de modo algum, a verdadeira dimensão da película. Pois  ela é uma espécie de 'documentário' de guerra que mostra a miséria de um povo que está sofrendo tanto pelas matanças deliberadas por parte de um grupo quanto o fim de vidas que nada tem a ver com os conflitos políticos.
Não foram poucos os que morreram, quer seja dormindo ou acordado, sem nem ao menos saber o porquê de tanta violência gratuita. Quantas crianças tiveram suas vidas extintas por conta de ideologias que elas nem mesmo entendem. Quantos pais não puderam mais ver seus filhos em função de uma diferença étnica!
Não é difícil de emocionar-se em algumas cenas. Em algum momento da exibição do filme chegamos a nos perguntar o porquê de tudo aquilo, qual o sentido de tanta agressão mútua entre pessoas de uma mesma nação, um mesmo pais, um mesmo povo.
Por mais que a película não consiga traduzir os sentimentos dos ruandeses ou servir de testemunho de uma guerra civil como ocorreu em Ruanda, pode, minimamente, nos fazer refletir acerca do ‘desapego’ ou desdenho do homem para com o homem.
Em uma das cenas do filme, um repórter é bastante enfático ao dizer que embora o mundo veja o que está acontecendo  naquele país, nada se fará. Talvez o genocídio cause horror a alguns  que assitirão as notícias, porém logo esquecerão, sairão para jantar ou farão outra coisa- quer dizer, nossa comoção não transcende o âmbito imagético. Não podemos sentir o que aquela nação vilipendiada sentiu e talvez nem mesmo nos interessemos verdadeiramente pelos ruandeses.
Hotel Ruanda é tanto um belo filme que merece ser visto várias vezes quanto um dispositivo que expõem-nos enquanto seres humanos e nos faz pensar sobre onde estamos e onde chegaremos. Nos faz refletir acerca de nossa crueldade para com nosso semelhante.

            * Paulo Rusesabagina foi de fato responsável por salvar 1268 ruandenses, tanto hutu quanto tutsi, abrigando-os no hotel  Milles Collines. Hoje ele mora na Bélgica.



terça-feira, 22 de novembro de 2011

O homem com uma câmera de filmar: Uma poética do cinema


Iniciamos nosso ciclo de filmes clássicos com a obra que considero o maior documento cinematográfico sobre a arte do cinema: O homem com uma câmera de filmar (Человек с Киноаппаратом), com técnicas revolucionárias para sua época revolucionou e influenciou a estética e a história do cinema como um todo. 
Ficha técnica:
Direção:Dziga Vertov
Ano:1929
País:Rússia
Gênero:Documentário
Duração:80 min. / p&b / mudo
Título Original:Chelovek s Kinoapparatom
Título em inglês:The Man with a Movie Camera 

Sinopse:
Um experimento cinematográfico que foi considerado inovador para a sua época por utilizar várias técnicas até então pouco ou nada vistas. É um documentário que mostra um dia normal, totalmente típico, na cidade de Moscou.

Crítica:
Em O homem com a câmera (1929) o cineasta russo Dziga Vertov promove a criação de um cinema de revelação: do que está oculto sob a aparência do processo social, que capte e reelabore a visão industrial dos acontecimentos do mundo. Vertov era incisivo em sua recusa da ficção cinematográfica. Sua proposta é captar os fatos. A máquina “cine-olho” quer captar a orquestração do mundo e, para isto está mais equipada do que o olhar natural do homem enredado em deformações psicológicas na percepção do fato.  Para o diretor “o ‘psicológico’ impede o homem de ser tão preciso quanto o cronômetro, limita o seu anseio de se assemelhar a maquina”. O que nos revela uma utopia da perfeição industrial e socialista, ao mesmo tempo, um otimismo industrialista a partir de uma estética da máquina que estão vinculados o seu engajamento no projeto desenvolvimentista da nova sociedade socialista de Lenin.
Os filmes soviéticos adotam uma postura construtivista inclusa no contexto das vanguardas, que se manifesta no seu interesse em mostrar a ideia do cineasta-proletário, na inserção da arte na vida cotidiana, nos materiais de construção do filme (câmera, filmagem, montagem). Porém, Vertov vai mais além “ao revelar a alma da máquina, promovendo o amor do operário por seu instrumento, da camponesa por seu trator, do maquinista por sua locomotiva”.  Defendia que a câmera era o mecanismo capaz de filtrar as interferências subjetivas. Com cenas reais, sem atuação, propõem o cinema verdade [kino-pravda]. Trazendo consigo de forma poética as matrizes características do realismo e uma exaltação da máquina.
O homem com a câmera é um marco no cinema mundial, nos mostra o olhar do homem sobre a modernidade e sobre si. Ao mesmo tempo uma obra futurista, uma enciclopédia de técnicas cinematográficas com seus close-ups, slow motion,  travelings e panorâmicas, ângulos e enquadramentos, recortes, transições e a animação de objetos, sendo pioneiro em muitas dessas.
Desde seu início o filme nos mostra a que veio: romper com a literatura e dramaturgia no cinema. Em um cinema sem atores e sem encenação, no qual talvez os únicos e possíveis atores seja o próprio “homem da câmera”, representado por Mikhail Kaufman irmão de Vertov, “o realizador” que passa pelas ruas a capturar o movimento da vida. E Yelizaveta Svilova, esposa de Vertov, representando a assistente de montagem, ambos filmados em seus papeis da vida real. Para o diretor a câmera em seus movimentos e artifícios únicos e a montagem como motora do processo já é a marca estética da arte cinematográfica por excelência não sendo necessário um espetáculo encenado.
A intenção em buscar consciência por parte dos espectadores e revelar através do cine-olho uma visão nitidamente transformadora do universo fílmico, buscando uma verdade que não deve sofrer manipulação que destruam sua autenticidade, resgata as características do primeiro cinema e constrói a ideia do que hoje chamamos de documentário.
Um filme mudo, orquestrado magnificamente por sugestão do próprio Vertov pela The Alloy Orchestra (versão de 1996). Uma obra prima da história do cinema, um documento imagético e uma verdadeira aula de cinema.  


domingo, 6 de novembro de 2011

DICA DE HJ: "12 HOMENS E UMA SENTENÇA"


Hoje sugiro que assistam, assim que puderem, o filme “12 Homens e uma sentença” (“12 Angry Men. EUA, 1957”. Suspense), de Sidney Lumet.
O filme conta a história de um julgamento de um jovem que é acusado de matar seu pai. Para tê-lo como culpado ou inocente, forma-se um jure composto por 12 homens, os quais devem se reunir numa sala e votar, decidindo sobre sua vida ou sua morte, pois a pena é de morte, caso ele seja considerado culpado. Onze homens consideram, de antemão, o rapaz culpado, com exceção de um. E é exatamente esse homem que desconfia que o rapaz tenha cometido o crime que provocará toda uma discussão, pois ao considerá-lo ‘inocente’ ele terá de argumentar acerca da não culpabilidade do réu. O desdobramento do filme se dará sob esse prisma, isto é, haverá argumentos e contra-argumentos acerca da ‘inocência’ do réu. 


Para mais informações consoante ao roteiro do filme:

http://tinyurl.com/7shcr8t
http://tinyurl.com/c8zymmd
http://tinyurl.com/ct4wn5n
http://tinyurl.com/d4foryc
            

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Ultima sessão do ciclo (11/11/11)


A grande testemunha (1966) 

Diretor: Robert Bresson
SINOPSE
Conhecemos a história de um burrico chamado Balthazar, desde o seu nascimento até quando se torna adulto, utilizado para transportar cargas pesadas. Temos também a história paralela de sua dona, quem lhe deu este nome e que sofre com as humilhações de seu amante.

Lembrete: Levem suas propostas para o próximo ciclo. Os pré-requisitos: Filme clássico, dos anos 30, 40 ou 50. 


Hora: 13h
Lugar: sala C1, setor 2

sábado, 29 de outubro de 2011

" 'OS IDIOTAS' NÃO SÃO TÃO IDIOTAS"



Olá pessoal.


Hoje meu "post" tem por finalidade tecer algumas considerações acerca do filme “Os Idiotas” (Idioterne, Dinamarca, 1998), do cineasta dinamarquês Lars Von Trier.

Quando soube que coube a mim a tarefa de ser o primeiro a escrever acerca d'Os Idiotas- a incumbência é legitima visto que fui eu quem indicou sua exibição-, quedei-me a pensar sobre o que escreveria, qual reflexão extrair desta película. Para não me sentir totalmente desprovido de subsídios acerca do filme, dediquei algum tempo 'navegando' na Internet, à procura de alguma crítica que pudesse ser-me útil quanto à sua compreensão . Embora eu tenha apreendido algumas coisas, poucos foram os sites que encontrei algo que fosse além de sua apresentação (a sinopse). Quando muito, encontrei alguns sites que falavam um pouco acerca do “Dogma 95”- tenho uma "postagem" aqui cuja intenção é esclarecer o que seria este "Dogma"; talvez valha a pena conferir.

Bem, encontrei algumas críticas que foram feitas no período do lançamento do longa (ver: http://fabricio.diaryland.com/osidiotas.html). Críticas estas que ou eram imparciais, atendo-se apenas a apresentar o filme, ou eram cáusticas, sendo taxativamente adversas à proposta de Von Trier.

Após minha pesquisa, percebi que os críticos não destacam –aos menos as críticas que li até então- um aspecto que parece ser importante na proposta do cineasta, juntamente com os outros representantes do manifesto “Dogma 95”; este aspecto seria rediscutir o cinema e a apropriação do mesmo por Hollywood, tornando-se puramente comercial.

Parece que a atenção de todos é desviada, como era de se esperar, para a câmera na mão, ausência de truques cinematográficos, sem  iluminação artificial etc., elementos essenciais ao “Dogma 95” (conferir nossa postagem que apresenta um artigo que discorre acerca do “Dogma”).

Nossa reflexão se inscreve tanto ao que diz respeito ao tema discutido "no"  e "pelo" filme quanto à rediscussão posta em voga pelo mesmo: primeiro, uma crítica da sociedade burguesa; segundo, uma defesa de um cinema não comercial, ou a não “cosmetização” dos filmes.

Ao exibir um longa que quase todos os personagens são loucos que andam pela cidade, transgredindo os valores impostos pela sociedade dinamarquesa, não pagando a comida que comem nos restaurantes em função de uma possível loucura (idiotice), mostrando a nudez para as pessoas sem que ninguém lhes prenda ou insulte-os por tais atos, tachando-os de pervertidos, Von Trier torna visível e discutível os valores que são instituídos pela sociedade burguesa de seu pais- não só de seu pais, porém, de modo bem geral, de todo o ocidente.

Não me parece que o cineasta prever uma “sociedade de idiotas” ou mesmo que a propõe, antes ele parece nos convidar a refletir sobre as nossas limitações impostas pela sociedade.

Ser “idiota” seria mais que agir loucamente, arrancando sentimento de pena das pessoas ou mesmo constrangimento. Ser “idiota” seria romper com os costumes que muitas vezes não são nossos costumes- sendo, pois apenas ideologias-, destruir concepção que não são nossas concepções. 
No filme, percebemos que quando os "idiotas" entram em "paranóia" permitem que as pessoas possam perceber que a louca- ou o agir diferente- não precisa necessariamente ser rotulada de 'feia' ou de 'errada', tendo em vista que se pode ter outras boas experiências com outras maneiras de agir; e que o que a sociedade reprova não são estas diferentes atitudes, entendendo-as muitas vezes por "feias", "grotescs", "indecente". A sociedade reprova o que é novidade, toda proposta de pensar e agir diferente- talvez por causar algum desconforto, porque conceber estas condutas implicam em repensar todo o comportamento social e, por conseguinte, "inventar" uma "nova moral", por assim dizer (Contudo, não queremos configurar uma discussão ambientada apenas na moral, nem pretendemos fazer alusão ao senhor Nietzsche!)
Quiçá alguém reclame, legitimamente, que para que esta proposta de pensamento fosse posta em voga o Von Trier não precisava ter usado uma câmera na mão ou iluminação natural, deixando o filme minimamente desagradável de se ver, para alguns. Esta é a segunda parte que muito me chamou a atenção. Quando o cineasta faz uma película que esteja nos moldes do "Dogma 95", permite que discutamos aonde chegamos com a sétima arte e para onde iremos.
Sim, pois, o que é aparentemente uma espécie de retrocesso quando se limita o que “pode” e o que não “pode” no cinema, é na verdade uma tentativa de recuperar um cinema que não está a serviço do público em forma de simples entretenimento- apresenta-se, como tem de ser, certa contradição, pois, o que mais se procura na arte é a liberdade e não uma postura reacionária.

É bem verdade que muitos podem dizer, e com certa razão, que esta pretensão do “Dogma 95” “malogrou, que não teria como dar certo, que não deu certo”. Todavia, penso que o mais interessante não é fazer uma defesa a esta maneira de fazer cinema- inclusive não penso que seja muito interessante de assistir a filmes nos moldes do Dogma. Meu interesse queda em entender este longa como uma tentativa de estabelecer ou visibilizar uma nova perspectiva para o cinema, o qual não estaria mais sob o domínio de Hollywood.

Não penso que a discussão acerca do rumo do cinema encerra-se em si mesma, pois que tal como ele tem caminhado por vias que desagradam a alguns e satisfazes a outros, a arte, de um modo geral, tem tido outras configurações, que nem sempre são fáceis de conceber- bem, não intenciono falar acerca das artes, tomaria muito tempo e seria necessária uma elucubração.

Desta feita, e para finalizar meu pequeno texto, recomendo o filme, quer seja para ponderar sobre os valores da burguesia, quer para pensar sobre o Dogma, o qual nos faz re-pensar noutras  expressões artísticas e seus rumos.


Att a próxima!

sábado, 15 de outubro de 2011

Boogie Night (minhas considerações)



É um filme razoável, tem um roteiro bom e bem dirigido, no qual um mundo de histórias paralelas dá um acabamento maduro ao tema principal do filme, o primeiro grande filme do diretor Thomas Anderson. Baseado na vida do ator pornô famoso nos anos 70 John Holmes e concebido como uma história promissora para o cinema pelo diretor desde o curta The Dirk Diggler Story (1988). A trama tem bom humor e uma temática polêmica que nos mostra com naturalidade a arte do cinema pornô, ao mesmo tempo é clichê em seu resgate dos valores morais num o final feliz que mais parece “novela das oito”. Foi o que me incomodou nesse filme e o que tornou ele cansativo e “longo”, uma tentativa desnecessária de fechar todos os conflitos do roteiro. No mais o filme é divertido, tem uma grande vantagem na trilha sonora que embala todas as cenas e te induz intuitivamente durante todo o filme à simpatizar com ele.
Ah, a cena final é bem gratificante também. :P


Curiosidades:


O John Holmes tinha um pênis de 33 centimetros e fez 3000 filmes;
O Thomas Anderson tinha 17 anos quando fez The Dirk Diggler Story;


Trailer: