O filme Hotel Ruanda (Hotel RwandaI, EUA, 2004), de Terry George é um drama emocionante e de caráter denunciador. Sua história é ambientada em Ruanda, país que foi palco de uma guerra civil cujo resultado foi um massacre em que mais de meio milhão de pessoas tiveram suas vidas ceifadas.
Grosso modo, a película retrata o conflito político que aconteceu nesse país, em função do desentendimento dos dois grandes grupos étnicos existentes nesse país: os hutus e os tutsis. Unificando o ódio crescente entre ambos os grupos étnicos ao desinteresse das grandes potências mundiais de apaziguar o conflito, uma grande onda de mortes acontece em Ruanda, sendo os tutsis as principais vítimas e depois os ‘hutus moderados’- estes seriam hutus que não queriam matar os tutsis. Nesse cenário de desespero e horror, há um gerente do hotel Milles Collines, Paul Rusesabagina* (Don Cheadle), que abriga mais de 1200 (mil e duzentas) pessoas, mesmo que no início, a contragosto, pois que além de ele ser um hutu, portanto considerado um traidor que mereceria morrer também, sua maior preocupação é manter a segurança de sua família- sua esposa é tutsi.
Bem, a sinopse descrita no parágrafo anterior é a que encontramos comumente em qualquer descrição desse filme, todavia, ela não expressa, de modo algum, a verdadeira dimensão da película. Pois ela é uma espécie de 'documentário' de guerra que mostra a miséria de um povo que está sofrendo tanto pelas matanças deliberadas por parte de um grupo quanto o fim de vidas que nada tem a ver com os conflitos políticos.
Não foram poucos os que morreram, quer seja dormindo ou acordado, sem nem ao menos saber o porquê de tanta violência gratuita. Quantas crianças tiveram suas vidas extintas por conta de ideologias que elas nem mesmo entendem. Quantos pais não puderam mais ver seus filhos em função de uma diferença étnica!
Não é difícil de emocionar-se em algumas cenas. Em algum momento da exibição do filme chegamos a nos perguntar o porquê de tudo aquilo, qual o sentido de tanta agressão mútua entre pessoas de uma mesma nação, um mesmo pais, um mesmo povo.
Por mais que a película não consiga traduzir os sentimentos dos ruandeses ou servir de testemunho de uma guerra civil como ocorreu em Ruanda, pode, minimamente, nos fazer refletir acerca do ‘desapego’ ou desdenho do homem para com o homem.
Em uma das cenas do filme, um repórter é bastante enfático ao dizer que embora o mundo veja o que está acontecendo naquele país, nada se fará. Talvez o genocídio cause horror a alguns que assitirão as notícias, porém logo esquecerão, sairão para jantar ou farão outra coisa- quer dizer, nossa comoção não transcende o âmbito imagético. Não podemos sentir o que aquela nação vilipendiada sentiu e talvez nem mesmo nos interessemos verdadeiramente pelos ruandeses.
Hotel Ruanda é tanto um belo filme que merece ser visto várias vezes quanto um dispositivo que expõem-nos enquanto seres humanos e nos faz pensar sobre onde estamos e onde chegaremos. Nos faz refletir acerca de nossa crueldade para com nosso semelhante.
* Paulo Rusesabagina foi de fato responsável por salvar 1268 ruandenses, tanto hutu quanto tutsi, abrigando-os no hotel Milles Collines. Hoje ele mora na Bélgica.

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