Iniciamos nosso ciclo de filmes clássicos com a obra que considero o maior documento cinematográfico sobre a arte do cinema: O homem com uma câmera de filmar (Человек с Киноаппаратом), com técnicas revolucionárias para sua época revolucionou e influenciou a estética e a história do cinema como um todo.
Ficha técnica:
Direção:Dziga Vertov
Ano:1929
País:Rússia
Gênero:Documentário
Duração:80 min. / p&b / mudo
Título Original:Chelovek s Kinoapparatom
Título em inglês:The Man with a Movie Camera
Sinopse:
Um experimento cinematográfico que foi considerado inovador para a sua época por utilizar várias técnicas até então pouco ou nada vistas. É um documentário que mostra um dia normal, totalmente típico, na cidade de Moscou.
Em O homem com a câmera (1929) o cineasta
russo Dziga Vertov promove a criação de um cinema de revelação: do que está
oculto sob a aparência do processo social, que capte e reelabore a visão
industrial dos acontecimentos do mundo. Vertov era incisivo em sua recusa da
ficção cinematográfica. Sua proposta é captar os fatos. A máquina “cine-olho”
quer captar a orquestração do mundo e, para isto está mais equipada do que o
olhar natural do homem enredado em deformações psicológicas na percepção do
fato. Para o diretor “o ‘psicológico’
impede o homem de ser tão preciso quanto o cronômetro, limita o seu anseio de
se assemelhar a maquina”. O que nos revela uma utopia da perfeição industrial e
socialista, ao mesmo tempo, um otimismo industrialista a partir de uma estética da máquina que estão vinculados
o seu engajamento no projeto desenvolvimentista da nova sociedade socialista de
Lenin.
Os filmes soviéticos
adotam uma postura construtivista inclusa no contexto das vanguardas, que se
manifesta no seu interesse em mostrar a ideia do cineasta-proletário, na
inserção da arte na vida cotidiana, nos materiais de construção do filme (câmera,
filmagem, montagem). Porém, Vertov vai mais além “ao revelar a alma da máquina,
promovendo o amor do operário por seu instrumento, da camponesa por seu trator,
do maquinista por sua locomotiva”. Defendia
que a câmera era o mecanismo capaz de filtrar as interferências subjetivas. Com
cenas reais, sem atuação, propõem o cinema verdade [kino-pravda]. Trazendo
consigo de forma poética as matrizes características do realismo e uma
exaltação da máquina.
O
homem com a câmera
é um marco no cinema mundial, nos mostra o olhar do homem sobre a modernidade e
sobre si. Ao mesmo tempo uma obra futurista, uma enciclopédia de técnicas
cinematográficas com seus close-ups, slow motion, travelings e panorâmicas, ângulos e
enquadramentos, recortes, transições e a animação de objetos, sendo pioneiro em
muitas dessas.
Desde seu início o
filme nos mostra a que veio: romper com a literatura e dramaturgia no cinema. Em
um cinema sem atores e sem encenação, no qual talvez os únicos e possíveis atores
seja o próprio “homem da câmera”, representado por Mikhail Kaufman irmão de
Vertov, “o realizador” que passa pelas ruas a capturar o movimento da vida. E
Yelizaveta Svilova, esposa de Vertov, representando a assistente de montagem,
ambos filmados em seus papeis da vida real. Para o diretor a câmera em seus
movimentos e artifícios únicos e a montagem como motora do processo já é a
marca estética da arte cinematográfica por excelência não sendo necessário um
espetáculo encenado.
A intenção em buscar
consciência por parte dos espectadores e revelar através do cine-olho uma visão
nitidamente transformadora do universo fílmico, buscando uma verdade que não
deve sofrer manipulação que destruam sua autenticidade, resgata as características
do primeiro cinema e constrói a ideia do que hoje chamamos de documentário.
Um filme mudo,
orquestrado magnificamente por sugestão do próprio Vertov pela The Alloy
Orchestra (versão de 1996). Uma obra prima da história do cinema, um documento
imagético e uma verdadeira aula de cinema.
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