terça-feira, 22 de novembro de 2011

O homem com uma câmera de filmar: Uma poética do cinema


Iniciamos nosso ciclo de filmes clássicos com a obra que considero o maior documento cinematográfico sobre a arte do cinema: O homem com uma câmera de filmar (Человек с Киноаппаратом), com técnicas revolucionárias para sua época revolucionou e influenciou a estética e a história do cinema como um todo. 
Ficha técnica:
Direção:Dziga Vertov
Ano:1929
País:Rússia
Gênero:Documentário
Duração:80 min. / p&b / mudo
Título Original:Chelovek s Kinoapparatom
Título em inglês:The Man with a Movie Camera 

Sinopse:
Um experimento cinematográfico que foi considerado inovador para a sua época por utilizar várias técnicas até então pouco ou nada vistas. É um documentário que mostra um dia normal, totalmente típico, na cidade de Moscou.

Crítica:
Em O homem com a câmera (1929) o cineasta russo Dziga Vertov promove a criação de um cinema de revelação: do que está oculto sob a aparência do processo social, que capte e reelabore a visão industrial dos acontecimentos do mundo. Vertov era incisivo em sua recusa da ficção cinematográfica. Sua proposta é captar os fatos. A máquina “cine-olho” quer captar a orquestração do mundo e, para isto está mais equipada do que o olhar natural do homem enredado em deformações psicológicas na percepção do fato.  Para o diretor “o ‘psicológico’ impede o homem de ser tão preciso quanto o cronômetro, limita o seu anseio de se assemelhar a maquina”. O que nos revela uma utopia da perfeição industrial e socialista, ao mesmo tempo, um otimismo industrialista a partir de uma estética da máquina que estão vinculados o seu engajamento no projeto desenvolvimentista da nova sociedade socialista de Lenin.
Os filmes soviéticos adotam uma postura construtivista inclusa no contexto das vanguardas, que se manifesta no seu interesse em mostrar a ideia do cineasta-proletário, na inserção da arte na vida cotidiana, nos materiais de construção do filme (câmera, filmagem, montagem). Porém, Vertov vai mais além “ao revelar a alma da máquina, promovendo o amor do operário por seu instrumento, da camponesa por seu trator, do maquinista por sua locomotiva”.  Defendia que a câmera era o mecanismo capaz de filtrar as interferências subjetivas. Com cenas reais, sem atuação, propõem o cinema verdade [kino-pravda]. Trazendo consigo de forma poética as matrizes características do realismo e uma exaltação da máquina.
O homem com a câmera é um marco no cinema mundial, nos mostra o olhar do homem sobre a modernidade e sobre si. Ao mesmo tempo uma obra futurista, uma enciclopédia de técnicas cinematográficas com seus close-ups, slow motion,  travelings e panorâmicas, ângulos e enquadramentos, recortes, transições e a animação de objetos, sendo pioneiro em muitas dessas.
Desde seu início o filme nos mostra a que veio: romper com a literatura e dramaturgia no cinema. Em um cinema sem atores e sem encenação, no qual talvez os únicos e possíveis atores seja o próprio “homem da câmera”, representado por Mikhail Kaufman irmão de Vertov, “o realizador” que passa pelas ruas a capturar o movimento da vida. E Yelizaveta Svilova, esposa de Vertov, representando a assistente de montagem, ambos filmados em seus papeis da vida real. Para o diretor a câmera em seus movimentos e artifícios únicos e a montagem como motora do processo já é a marca estética da arte cinematográfica por excelência não sendo necessário um espetáculo encenado.
A intenção em buscar consciência por parte dos espectadores e revelar através do cine-olho uma visão nitidamente transformadora do universo fílmico, buscando uma verdade que não deve sofrer manipulação que destruam sua autenticidade, resgata as características do primeiro cinema e constrói a ideia do que hoje chamamos de documentário.
Um filme mudo, orquestrado magnificamente por sugestão do próprio Vertov pela The Alloy Orchestra (versão de 1996). Uma obra prima da história do cinema, um documento imagético e uma verdadeira aula de cinema.  


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